quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Sete meses depois, volto aqui a todo gás. Entro a abrir com o meu Pisca Pisca, o carro-gente que me acompanha nesta missão Haiti. O Pisca, que já vai nos 18 anos, é uma constante caixa de (más) surpresas. Pára quando quer, parte o eixo (não, não é culpa da condutora e da pouca habilidade para desviar-se dos buracos), perde o ar dos pneus a toda a hora, tem um volante que não quer rodar, fica sem a caixa de velocidades. Enfim, tem os seus caprichos e sempre quando a condutora está sozinha (no meio da noite, em estradas sem luz e nem sempre conhecidas pelas condições de segurança).
Regressada há uma semana e pico de férias, peguei no Pisca e lá fui. Não notei diferenças na visibilidade. Como de costume, não vejo nada de noite, cega pelos faróis alheios e pela fraqueza das minhas próprias luzes (recém-compradas, para que conste). No sempre complexo regresso a casa (verificar se não há ninguém na rua-sair do carro a correr com os faróis acesos -abrir garagem- regressar ao carro-entrar a todo o gás -fechar garagem, não sem antes verificar se os maus não entraram no edifício) reparei, finalmente, que um dos faróis não funcionava. O Pisca não vê do olho esquerdo.
Bah! Peanuts! Eu já não via nada mesmo! De qualquer forma, há pelo menos 3300 Tap Taps que nem um só farol têm, nem piscas, nem qualquer tipo de luzinha. O mesmo com os camiões, aos milhares, com um farol a funcionar, no máximo. À noite, parecem todos motinhas a circular com um único pontinho de luz. Por isso, PISCA adaptou-se finalmente à realidade local.
Naturalmente, para estas situações há sempre uma qualquer lei de Murphy que se aplica. Nesta semana fui parada três vezes pela policia haitiana, sempre de noite, em estradas sem movimento e eu, sempre sozinha no carro. Ontem, meia hora depois de ver mais um carro da policia a passar só com um farol ligado, fui parada, mais uma vez, p'los seus guardas.
Em crioulo falaram. Ainda bem, fiz de conta que não percebia bem.

"-Problema, problema madame, um dos faróis não funciona." (cara séria) (rua vazia, escura)
"-Oi?"
"-Farol, luz, não funciona."
"-Jura?! Xi, quando terá sido? Não dei conta. Ai que chatice! Quem terá sido o malandro?" (cara de parva, com um leve sorrisinho inocente) (rua vazia, escura)
"-Documentos" (cara mais séria)
"-Com certeza seu guarda" (xi, os documentos estão em nome do mecânico e a carta de condução é daquelas cor-de-rosa que já nem em Portugal se usa)
(deverei protestar, dizer que não é justo já que há 3300 tap taps sem farol e outros tantos carros de policia em igual ou pior estado? é melhor não. continuo com a carinha de parva)
"-Pode seguir!!" (cara séria)
"-Mas, oh seu guarda, já agora, é o farol direito ou o esquerdo?? Que chatice, vou já, já reparar!"

ACHAS??? Afinal, Pisca que pisque tem sempre que ter um aberto e outro fechado, certo?

Um comentário:

  1. Adorei Mariana.Cuida-te.Beijinho.Carla dos Barcos Dragão.

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